Não parece, mas o vestibular ainda não acabou. Amanhã e depois eu faço as provas de Português e História da segunda fase. Relaxei demais, confortada pelo meu bom desempenho na primeira prova. E outras coisas, que estavam na minha lista de espera para receberem atenção depois da primeira fase, vieram à tona e uma vez que eu prestei atenção nelas, não consegui mais criar aquela atmosfera de estudo e dedicação de antes. Exemplos: 1) A Juju veio morar de novo comigo. Foi muito difícil resistir à tentação de voltar ao velho esquema das irmãs Pinky e Cérebro. 2) O início da dieta. Só quem já fez uma, radical e também duradoura, sabe o quanto de energia mental é consumida. 3) A vontade de retomar a convivência com um monte de gente que eu tinha deixado de ver.
Mas não adianta muito analisar os motivos, o fato está consumado. O que tiver que ser, será.
Me pergunto se tenho razão para estar assim. O que aconteceu? Objetivamente, nada. Subjetivamente, um tornado – e posso te garantir que um tornado era exatamente o que eu não precisava agora. Supostamente, você tinha a dimensão do tamanho do voto de confiança que tinha recebido. E para quem já estava na corda bamba, uma simples frase não-dita foi fatal. Será que eu não fui clara? Será que deixei subentendido demais? Na verdade não importa agora, porque assumo que eu sou sutil, escancaro meu coração nas entrelinhas (quando o fiz abertamente, ele foi tomado de mim e jogado longe antes que eu pudesse entender o que tinha acontecido). E não estou mais disposta a dar as boas-vindas nele para quem não entende nem respeita minha sutileza. Isso é a autenticidade que eu assumi. E na descrição da Mirana Autêntica está lá, na terceira linha, pode ver: “Não me desculpar pelos meus sentimentos”. Se eu tivesse dado ouvido aos meus instintos ontem, não teríamos nem chegado ao Reindeer Section. Não me arrependi, vamos deixar claro, mas não valeu a pena. Eu estou frágil ultimamente, e especialmente hoje eu precisava de calor. Não posso ignorar meu instinto agora, que está berrando aqui do meu lado: “Não! Não! Por aí não !!!”
Então ficamos assim. O pomar, a praia: a nossa história é feita (só) de quases.
Adendo: com um certo distanciamento, com os sentimentos assentados, eu entendo que você preze a sua liberdade acima de tudo nesse momento. Mas não acredito que ela seja incompatível com demonstrar cuidado e respeito por alguém que te fez o mesmo com você. 04/01/03.
1. Eu não sou exclusiva. A Mirana Godoy Coutinho também foi aprovada para segunda fase da Fuvest, e vai fazer prova em Ribeirão Preto. Ninguém além de mim pode calcular o quanto essa informação me abalou. É claro que existem outras Miranas no mundo, mas no mesmo estado??? Meus sentimentos se dividem em querer conhecer a, provavelmente, única xará que eu tenho, e/ou querer que ela suma.
2. “Você anda que nem modelo na passarela.” “Como assim?” “Quando você anda você não mexe o tronco, seus ombros ficam imóveis e só o seu quadril mexe, que nem modelo em passarela”. Fiquei em silêncio.
3. “You’re not beautiful, you’re not very beautiful, you’re outrageous. The day you find that out, all men on earth are damned.” Isso eu já sabia, mas vivo esquecendo.
4. Almodóvar, “Hable con ella.” Não posso mais trabalhar com cinema, senão vou ficar me sentindo medíocre pro resto da vida. Cara, como eu queria ter feito esse filme!!!
5. Antigos preconceitos foram abandonados ontem à noite, sobre uma canga amarela. A sensação de leveza foi quase plena; mas ainda não posso evitar o frio na barriga e medo de cair pela segunda vez no mesmo buraco.
Lá pelos cinco ou sete anos, descobri qual era a coisa mais bonita do mundo: uma bailarina clássica. Minha família, querendo ver o quão sério era o negócio, e me ouvindo dizer que iria ser bailarina quando crescer, começaram a me dar livros infantis sobre o assunto. Decidi: eu queria ser bailarina. Um dia eu e minha orgulhosa mamãe passamos uma tarde visitando escolas de ballet.
Poderia ter sido assim
Ao invés da escola da profa. Cátia, minha mãe me matriculou em outra. Nessa escola, os primeiros contatos e exercícios na barra não foram acompanhados por olhares medidores, da professora e das outras meninas, porque um ligeiro excesso de peso começava a aparecer; mas sim pela percepção da sábia professora que eu tinha muita leveza nos movimentos. Então, ao invés de me jogar na fileira do fundo durante a aula, espaço reservado para as gordinhas e desajeitadas, a professora fez-me perceber que, para ser uma bailarina, eu precisaria ser leve. E aquilo fez sentido. Incentivada pela vontade de dar piruetas no ar, controlei minha alimentação. Ao invés de desistir do balé depois de um ano, fui ensaiando, treinando, evoluindo, até realizar meu primeiro sonho: a sapatilha de ponta. Fui crescendo dançando. Minhas tardes durante o ginásio e o colegial não eram mais preenchidas por livros e aulas de francês, mas por rodopios na frente do espelho. Lá pelos meus quinze anos, a verdade apareceu: eu tinha 1,70m, quadris, ombros e ossos muito largos para ser bailarina clássica profissional – era grande demais. Mas como já não conseguia parar de dançar, experimentei Dança do Ventre, Flamenco, Jazz, até me apaixonar pela Dança Contemporânea. Quando terminei o segundo grau, prestei Dança na Unicamp, ou nem isso. Continuei ensaiando com grupos semi-profissionais até passar na seleção para integrar o Grupo Corpo.
Rodopiando na cozinha hoje enquanto fazia um chá, lembrei com mais clareza da primeira experiência frustrante da minha vida. Não sinto remorso - se não foi, não foi - e poderiam ter acontecido muitíssimas outras histórias ao invés dessa que eu imaginei. Mas a paixão pelos palcos, que eu fui descobrir na época do Teatro, poderia ter se manifestado mais cedo. Eu ainda amo dançar, e acho que poderia fazer isso profissionalmente, se tivesse desenvolvido outra relação com meu corpo enquanto crescia.
Quando eu era pequena, não menor em tamanho, mas em limites e vontades, a virada do ano novo era um momento mágico. Tudo, todos, qualquer e nenhum aspecto do mundo poderia mudar – záp! – à meia-noite do dia 31 de dezembro. Minha pele ficará azul, minha prima vai crescer 30 centímetros, o mar vai bocejar um lamento, a padaria se desintegrará, eu ficarei magra, irão nascer dois sóis amanhã, ganharei um amigo duende. Meu pai terá cinco braços, aquele cachorro vai citar Nietsche, o governo dará comida, casa, namorados e remédios de graça para todos, escadas agora devem ser subidas ou descidas de costas, é proibido pela Constituição Federal magoar alguém, aquela lanchonete vai virar uma biblioteca com 30.000 títulos, ninguém mais me obrigará a fazer algo que eu não quero. A lei da gravidade não é válida em finais de semana e feriados, toda vez que eu fizer um desejo ele vai acontecer, minha mãe revelará que, por todos esses anos, ela tinha o corpo todinho tatuado e ninguém sabia.
Não sei se é feliz ou infelizmente; talvez não seja passível de um julgamento de valor, é simplesmente um fato da vida, mas atualmente, as 11 horas e 59 minutos desse ano são exatamente iguais à meia-noite-e-dez do ano que chega. Cá estou eu, faltam doze horas para o ano novo, e eu nem tenho planos ainda. Vou ficar em casa, com meu pai e a Cláudia, antes de dormir farei uma meditação especial, pela ocasião. Não sei o que vou comer ou beber, e nem se o farei. O Revèillon do Faustão ainda é uma possibilidade, triste, mas possibilidade.
A verdade é que meu ano novo já começou. Nem sei dizer quando. Mas por muito tempo eu preparei meu corpo, alma e mente para uma mudança total de conceitos e paradigmas. E ela aconteceu, um milagre mais notável do que os três novos braços do meu pai.
Resolução de ano novo? Só uma, e muitas. Ser autêntica, e todas as suas infinitas implicações.
Esse eu escrevi ontem à noite. Cheguei na porta de casa, desliguei o carro e um silêncio abismal se fez. Foi impossível resistir, ele saiu no verso de uma correspondência de banco.
Silêncio.
Quando
A máquina pára
A chuva cessa
Ninguém caminha
O vento adormece
O sangue estanca
Não sobra
Nada.
Só o tempo
Correndo em surto
Os braços abertos
Derrubando as louças chinesas
Num berro desumano
De quem não é humano
É o pobre, infeliz
Tempo
Preso às correntes da sua infinitude.
Não sei porque fiquei tanto tempo sem escrever. Nâo foi nada premeditado, simplesmente... eu não escrevi mais. Fatores contribuintes: a dieta (que ocupa muita energia mental) e o computador no qual eu checo e-mails agora, que não abre a página do blogger. Acho que blogs funcionam assim mesmo (pelo menos esse): o único compromisso aqui é comigo mesma. E se não rola, não rola, sinto muito.
Mas agora que todo mundo viajou, e eu fiquei nessa casa branca e enorme sozinha, bateu uma certa solidão. Não é aquele tipo de solidão remediável com um telefonema e um café com uma pessoa querida. É uma solidão mais estrutural. Já faz um certo tempo que eu percebi uma lacuna na minha vida, na pasta "relacionamentos sociais". Não são amigos (que graças a Deus eu tenho aos baldes, e de primeira linha), não é família... Talvez um namorado (se bem que essa é uma hipótese arriscada, porque delega a um elemento externo a responsabilidade sobre um sentimento meu). Talvez uma parte de mim mesma tenha viajado e ainda não voltou. Mas, mesmo sem saber do quê, sinto falta, como um passarinho que sabe quantos filhotes deveriam estar no ninho.
Sempre gostei de ficar sozinha, mas ultimamente os momentos solos têm sido meio melancólicos.
A diferença começa a ser perceptível, tanto nas roupas como no espelho. Fazer dieta pode ser uma suplício ou um prazer. É tortura se você calcula mentalmente tudo aquilo de que está sendo privada, e começa a ficar com raiva por causa disso. Como se não poder comer mousse de chocolate no Natal significasse que eu sou inferior àqueles que podem. Mas não é esse o espírito. Eu estou escolhendo a alface e a rúcula ao invés da mousse porque, para mim, a alface e a rúcula significam leveza, liberdade e amor-próprio (e até biquini e minissaia). A mousse significa inércia, no pior sentido dessa palavra (que me assombra há tanto tempo). O segredo é encarar essa longa tarrefa, que vai durar a vida inteira, como o único caminho possível para sair daqui onde eu estou e chegar lá onde eu quero.
Parabéns, minha querida, por se libertar de uma coisa que te trazia tanto peso nas costas. Deixe-se mimar. Se esbalde de sorvete, chandelle, danoninho e nestlè baby. Não fique triste por não poder comemorar nem bebemorar o Ano Novo. Se aquilo que fazemos na noite da virada reflete como vai ser o ano que vem, eu e você sabemos que seria muito bom um ano mais calmo pra você. Para batalhar as coisas que você quer mudar na sua vida. As baladas vâo estar sempre lá. E "todas as noites são iguais: os meninos satisfeitos e as meninas querem mais".
Por mais que o momento atual pedisse independência, não consegui me abster do envolvimento. Lágrimas no aeroporto? Não. Tenho certeza que essa viagem (no ponto de vista dela) e afastamento (para mim) vão ser fabulosos para as duas. Torço bastante, irmãzinha, para você quebrar a cara. Não é sadismo. Algumas coisas a gente só aprende assim, e são aprendizados fundamentais para uma vida feliz, para você sempre estar cercada de pessoas que estão ali pelo motivo certo: porque querem. Quebrar a cara na Europa é melhor ainda.
Ganhei a primeira festa surpresa da minha vida, no próprio dia 11. Graças à Carol, que me ligou quando eu não tinha ligado para ela, eu saquei que algo iria acontecer... Mas nem esperava que fosse naquele dia mesmo!! Créditos para a Ju com cumplicidade da Teca.